O que eu faria diferente parte 2 – orçamento

Existe um detalhe interessante no processo de seleção de profissionais qualificados do Quebec: a declaração de autonomia financeira. Para quem não sabe, o processo funciona assim: você coleciona pontos pela sua formação profissional, conhecimento de francês e inglês, experiência de trabalho, idade, número de filhos, etc. O objetivo é alcançar a pontuação necessária para ser selecionado. Um pontinho é dado só pelo fato de você assinar um papel chamado declaração de autonomia financeira.

O que é a declaração de autonomia financeira?

Nesse formulário você se compromete a trazer para o Quebec um montante suficiente para financiar sua família por três meses. O governo assume que o imigrante demora três meses para se instalar e conseguir entrar no mercado de trabalho, durante os primeiros três meses os imigrantes não tem acesso ao sistema público de saúde e não é possível pedir nenhum auxílio social durante esse período.

O que tem de errado?

Há três coisas erradas no esquema dessa declaração:

  • Em nenhum momento é requerida alguma prova de que o imigrante realmente tem esse montante, é apenas a palavra dada num papel assinado;
  • O prazo de três meses para conseguir instalar-se e obter um emprego é muitas vezes muito curto;
  • Os valores que constam no formulário são irreais, muito abaixo da real necessidade, confira;

Esse processo é para profissionais com curso superior, portanto o típico imigrante brasileiro vem de uma família de classe média, acostumado com alguns confortos. É claro que na maioria dos casos alguns mimos são cortados: carro, casa espaçosa e comer fora, entre outros. Imigrantes acostumados a comprar roupas no shopping center muitas vezes tem que se acostumar a comprar produtos usados em lojas como Village des Valeurs.

Mesmo com todas as concessões feitas o valor exigido pelo governo do Quebec continua uma piada. Uma uma família de quatro pessoas é pedido algo em torno de 5 mil dólares, uma média de 1600 dólares por mês. Para mobiliar uma casa, fazer as documentações, que muitas vezes envolvem despesas altas com tradução, comprar roupas adequadas para o inverno e ainda ter que arcar com aluguéis adiantados como depósito… o dinheiro vai embora rápido.

Como foi no nosso caso

No nosso caso, fizemos todas as concessões cabíveis. Vários meses sem carro, mobiliamos apenas os quartos, escolhemos um apartamento bem localizado, mas em conta, e trouxemos mais ou menos o dobro do dinheiro exigido. Tudo deu certo pois conseguimos emprego antes do fim do terceiro mês, mas foi por pouco, literalmente salvo pelo gongo.

O que eu faria diferente

Se eu pudesse voltar no passado e dar uma dica para o meu eu anterior, a dica seria:  “Controle o orçamento como faria o Tio Patinhas.” Não estou dizendo que meu eu do passado gastou descontroladamente, mas a situação merecia um controle mais rígido e apertado.

É normal os profissionais de informática e afins conseguirem emprego em um ou dois meses, principalmente se estiverem bem no francês e no inglês. Mas as coisas podem não ser tão fáceis, se faltar língua ou quando se chega no auge da crise econômica de 2009, o que foi o meu caso. Então prepare-se para o pior: traga mais do que o exigido se possível – pois dinheiro não brota em árvore – e controle o seu orçamento com mão de ferro.

O que ajuda e o que atrapalha

Ferramentas de orçamento ajudam. Hoje eu uso um software chamado Ynab (you need a budged) para controlar as finanças, é mais simples e prático do que o MS Money, mas existem outras opções boas como o Mint. Eu não gosto de ficar muito tempo fazendo orçamento, por isso acho melhor usar essas ferramentas do que o bom velho Excel.

Tem um monte de coisas que atrapalham. Já falei lá em cima sobre sair da zona de conforto, mas tem o problema da falta de referência. Ao ir no supermercado ou a uma loja de roupas ou móveis, nunca sabemos se está barato ou caro. Acabamos indo nas mesmas lojas que todos vão sem conhecer opções alternativas e até mesmo o câmbio nos prega peças as vezes.

Outras dicas que eu daria para o meu eu passado:

  • Evite comparar o preço com o Brasil.
  • Evite assinar contratos de longa duração para telefone celular só para ter o aparelho dos sonhos.
  • Verifique provedores alternativos telefone e  internet e pesquisa bastante.
  • Não dê ouvidos a frases como “se você não gastar 500$ num casaco vai passar frio…”; existe sempre um boa opção a um preço camarada.
  • Nessa hora é importante ter controle dos gastos, porque torrar a poupança à toa e logo de cara ninguém merece.

 

8 opiniões sobre “O que eu faria diferente parte 2 – orçamento

  1. Acho q vamos ter um início positivo aí pois analisando cada uma das dicas me vejo bem dentro desse perfil. Espero q não tenhamos grandes surpresas dentro disso! Vou dar uma olhada nessas ferramentas de controle de orçamento pois não estou mto satisfeito com a q venho usando. Valeu!

  2. Thiago, o negócio é pesquisar preços, por aqui e comparar uma loja com outra.

    Explico, alguns produtos aqui são mais caros que no Brasil e outros mais baratos: se você comparar com o BR, pode achar que um item está barato quando nos padrões daqui está caro, ou o contrário.

  3. Olá Sandro
    Depois de muito tempo longe dos blogs, retornei.
    Excelentes séries essas que você está fazendo, Mythbusters e O que eu faria diferente. Parabéns!
    Com relação à postagem anterior, a viagem exploratória, eu concordo com você.
    No início, apenas a esposa queria e insistiu para ir ao Québec, mas depois eu vi o quão bom foi ter ido.
    Foi muito bom conhecer e explorar Montreal e Gatineau.
    Também recomendo àqueles que puderem: façam a viagem exploratória!

    Com relação a esta postagem, eu indico também a ferramenta: http://www.yupee.com.br. É gratuito e bastante prático, dá para controlar cartão de crétido, cheques, dinheiro, etc. e tem gráficos!

    Abraço!

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