Eleição canadense e eleição brasileira

Urna eletrônica ©wikipedia_commons

Nesse ano de 2014 estou vivendo uma experiência inédita, votar em dois países diferentes. Ao receber a cidadania canadense ganhamos o direito de votar nas eleições locais, e já em abril desse ano exercemos nosso direito de voto.

A experiência de votar no Quebec está descrita em um post anterior, mas a experiência de votar nas eleições brasileiras, mesmo em território canadense, foi também interessante. E mais interessante é perceber como os dois processos eleitorais são completamente diferentes.

Votando em Montreal para eleições brasileiras

Para votar é Montreal é necessário transferir o seu título para a seção eleitoral de Montreal, no dia da eleição o Consulado do Brasil em Montreal se transforma numa seção eleitoral.

Fiz o meu pedido de transferência com antecedência no consulado, mas eu ainda não tinha ido buscar o meu título. Mas o pessoal do consulado estava entregando os títulos disponíveis no próprio dia da eleição, bastando apresentar um documento brasileiro de identidade. Quem não transferiu ainda o título pode comparecer no dia para justificar.

As mesas de voto foram montadas no térreo do prédio do consulado e, apesar da fila estar pequena, ficou um bolo de brasileiros se socializando – somos mestres nisso – dentro e fora do prédio. Nós também encontramos alguns amigos que não víamos há algum tempo. Encontrei por acaso um colega de trabalho – não brasileiro – que passava por lá e perguntou o que era aquilo, expliquei que era a eleição e que votar no Brasil é obrigatório, e isso causou espanto – como assim obrigatório??? É que eleição no Brasil é e no Canadá são coisas diferentes. Passo então a esse assunto.

A experiência eleitoral no Canadá

A eleição que participei na última primavera era uma eleição provincial, o que significa que estávamos votando no nosso deputado distrital para o congresso provincial e por tabela no primeiro ministro da província, equivalente ao governador no Brasil. Já a eleição brasileira é para presidente, já que brasileiros no exterior votam apenas para presidente.

Mas a grande diferença está na campanha eleitoral, não só por parte dos candidatos e partidos mas também por parte dos eleitores. A atual campanha eleitoral do Brasil está desvirtuada, a um que até o Facebook ter ficado insuportável com pessoas tentando te convencer que o seu candidato é melhor. Ou pior! Tentando convencer que o outro candidato é um monstro alienígena comedor de criancinhas.

Diferenças entre eleições no Brasil e no Quebec:

Brasil Canadá
Eleições são obrigatórias Vota quem quer, não sabe em quem votar nem sai de casa
Presidencialismo Parlamentarismo
Eleições diretas – votamos diretamente na pessoa que será presidente ou governador. Eleições indiretas – votamos no deputado que representa o nosso distrito – o primeiro ministro será o chefe do partido com mais cadeiras na câmara.
A cidade é poluída com cartazes cavaletes e santinhos. São permitidos cavaletes e placas afixadas aos postes – horrível…
Horário gratuito em TV aberta Não existe horário gratuito. Candidatos são convidados por canais de TV e Radio para debater assuntos diversos
Debates promovidos na TV Debates promovidos na TV com formato semelhante
Ataques pessoais ao candidato e até à sua família Candidatos são questionados por ações políticas passadas ou por posições ideológicas controversas
Polarização – eleitores estão se definindo como “torcedores” do partido A ou do partido B – quase como fiéis de uma religião. Polarização – eleitores se definem como fiéis a uma proposta ideologia ou mesmo a uma questão específica (economia, questões sociais, etc) e escolhem o candidato que está prometendo melhores mudanças nessa área; portanto eleitores trocam de partido mais frequentemente
Benefícios sociais – são associados ao partido ou até o candidato, e são usados como terrorismo eleitoral – exemplo: se o candidato X for eleito ele vai acabar com o bolsa família… Benefícios sociais – são associados como uma conquista da sociedade, independente do partido, implementada pela província ou pelo governo federal e pago com dinheiro dos contribuintes; nunca são usados como moeda de troca na campanha

Quero ressaltar o último item, algo que já escrevi no post sobre benefícios sociais no Canadá, aqui os benefícios nunca são associados ao político ou ao partido.

Quantas vezes você ouviu que o PT criou o bolsa família e que outros partidos vão acabar com ele? Na verdade o bolsa família foi criado a partir de programas sociais já existentes criados por governos anteriores.

Quantas vezes você ouviu que o PSDB derrotou a inflação através do Plano Real? Na verdade esse plano foi implementado no governo Itamar Franco e portanto deveria ser creditado ao PMDB!

E o candidato que dizia “A rodovia dos Bandeirantes, fui eu que fiz! A rodovia dos Imigrantes, fui eu que fiz!” Sim, mas com dinheiro arrecadado do povo e com empréstimos a serem pagos pelo sucessor, quem que fez então? Quem mandou construir ou quem pagou a conta?

Na última eleição do Quebec a grande perdedora foi a ex-primeira ministra Pauline Marois. Descobri mais tarde que ela foi a idealizadora das garderies estilo CPE a 7 dólares, li isso na Internet pois ela nunca, nuca mesmo, levantou a voz em campanha para dizer “A CPE? Fui eu que fiz!”

Domingo que vem vou votar no segundo turno para a eleição presidencial do Brasil, mas vou com um pouco de vergonha da política do meu país.

 

 

 

Uma opinião sobre “Eleição canadense e eleição brasileira

  1. Olá Sandro! Tudo bem?

    Muito bom o post! Tirou várias dúvidas sobre a eleição no exterior.

    Muito interessante a reflexão sobre os dois governos!

    Obrigada!

    Abraços na família!

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